Inês Dias
THE GHOST CAT
Ser fantasma
antes do tempo,
antes de nunca
o querer saber,
antes do fim do mundo.
Ou uma metáfora
perdida num livro
sobre a perda:
Contas-me
como era?
“This animal is now*
officially extinct.”
Ser fantasma,
poder finalmente,
oficialmente,
esquecer o que foi
um homem.
De Os Pequenos Fantasmas, Corsário-Satã, 2022
*19 de Junho de 2015
THE GHOST CAT
To be a ghost
before the due time,
before ever wanting
to know it,
before the end of the world.
Or a metaphor
lost in a book
about loss:
Will you tell me
how it used to be?
“This animal is now*
officially extinct.”
To be a ghost,
at last, to be
officially able
to forget what made
a man.
*June 19, 2015
Traduzido por Rui Pires Cabral para o Lisbon Revisited: dias de poesia
LEI SÁLICA
As mulheres da família sempre
tiveram um jeito quase póstumo
de existir: guardar o lume
em silêncio, comer depois de
servir os outros, morrer primeiro.
Saíam à hora de ponta do destino
para lerem os caminhos perdidos
e coleccionavam a abdicação
em caixinhas de folha, entre bilhetes
caducados ou dentes de infâncias alheias.
Esperavam a vida toda por uma vida
próxima, de alma presa a alfinetes
no vestido preferido para o enterro,
os passos medidos nas suas varandas
a dar para o fim do mundo.
Retomo-lhes às vezes os gestos
neste meu exílio inventado,
mas acaba aqui: vou encher de corpo
a sombra, mesmo que nem tempo
me reste já para a pesar.
De Cerveja & Neve, Averno, 2020
SALIC LAW
The women in our family always
had an almost posthumous way
of existing: tending the fire
in silence, eating after
serving the others, dying first.
They’d leave at the rush hour of fate
to read the lost trails,
collecting abdication
in little tin boxes, among expired
tickets or teeth from foreign childhoods.
They waited their whole lives for a close
life, their souls pinned
to their favourite funeral gowns,
their measured steps on the balcony
overlooking the end of the world.
I sometimes take up their gestures
in this invented exile of mine,
but it ends here: I will flesh out
the shadow, even if I no longer
have the time to weigh it.
Traduzido por Rui Pires Cabral para o Lisbon Revisited: dias de poesia
LA BELLE ET LA BÊTE
Em vez da luva
o gesto, do cavalo
a fuga, da chave
o ouro, do meu espelho
o outro; em vez de
uma rosa, a rosa.
Em vez das ruínas,
o arrepio de um sarcófago
sob a seara, ou
o calor da pegada
em que a mão agora poisa,
primeira pele de uma cobra
a sujar a história.
Essa beleza de trazer
a vida na ponta dos dedos
e um exército inteiro
de dois gatos para guardar
fronteira nenhuma.
De Cerveja & Neve, Averno, 2020
LA BELLE ET LA BÊTE
Instead of the glove,
the gesture; instead of the horse,
the escape; instead of the key,
the gold; instead of my mirror,
the other; instead of
a rose, the rose.
Instead of the ruins,
the chill of a sarcophagus
under the wheat field, or
the warmth of the footprint
where the hand now rests,
the first snake skin
to stain the tale.
This beauty of carrying
life at one’s fingertips
and a whole army
of two cats to guard
no border.
Traduzido por Rui Pires Cabral para o Lisbon Revisited: dias de poesia
UN SAMEDI SUR LA TERRE
Segredos ditos aos mortos nos subúrbios.
ANTÓNIO BARAHONA
Fraco consolo,
meia cidade em troco
de uma morte,
mas as ruas pareciam ávidas
do resto de calor
dos nossos passos.
Era Primavera,
caía em cópia restaurada
a neve mais triste do mundo;
e nada neste poema
precisa de ser uma metáfora:
só tu sabes
todos os atalhos mais demorados
de regresso
ao meu primeiro Oriente.
De Cerveja & Neve, Averno, 2020
UN SAMEDI SUR LA TERRE
Secrets told to the dead in the suburbs.
ANTÓNIO BARAHONA
Such poor consolation,
half the city in exchange
for a death,
but the streets seemed eager
for the remaining warmth
of our steps.
It was Spring,
the saddest snow in the world
fell in a restored copy;
and nothing in this poem
needs to be a metaphor:
only you know
all the longest shortcuts
back
to my first Orient.
Traduzido por Rui Pires Cabral para o Lisbon Revisited: dias de poesia
ÁGATA
Foi amor à primeira vista.
Ela tinha nome de pedra preciosa
e, na literalidade dos meus cinco anos,
cabelo em forma de pássaro – negro
asa de corvo.
Era o tempo em que ainda
aprendia com o corpo todo:
uma fractura exposta para entender
o significado de maioria, uma pneumonia
para descobrir a solidão.
Quando ela me cravou um lápis
sob o olho esquerdo, pressenti que a escrita,
grafite fria à flor do sangue,
deixaria marcas para sempre.
Nunca mais nos separámos.
Eu e as palavras,
a Ágata mudou de escola.
De Cerveja & Neve, Averno, 2020
ÁGATA
It was love at first sight.
She was named after a precious stone
and, to my literal five-year-old mind,
her hair was shaped like a bird – black
as a raven’s wing.
Those were the days when I was still
learning with my whole body:
an open fracture to understand
the meaning of majority, pneumonia
to discover loneliness.
When she stuck the pencil tip
under my left eye, I sensed that writing –
cold graphite edging over blood –
would leave a mark forever.
Since then, we have never been apart.
Me and words, I mean.
Ágata changed schools.
Traduzido por Rui Pires Cabral para o Lisbon Revisited: dias de poesia