Tiago Calixto

Mas que dia

Numa tarde de verão, a conversar com o meu amigo Jocas, descobri alguns episódios curiosos que ele experienciou no bonito e acolhedor bairro de Campo de Ourique.

Um dia, estava para sair de casa, fechou a porta e apercebeu-se de imediato que tinha deixado as chaves lá dentro. Como estava com fome, foi a um restaurante. Felizmente, tinha consigo a carteira, mas como um azar nunca vem só, enquanto caminhava para lá, foi assaltado por uma quadrilha de velhotes que costumam jogar às cartas no Jardim da Parada. Ameaçaram o Jocas com a bengala e lá teve ele de entregar a carteira. Sem qualquer dinheiro, teve de desistir da ideia de ir almoçar fora.

Mas a história não fica por aqui.

Além de estar sem dinheiro e com fome, Jocas tinha ficado com as suas roupas estragadas. Não é que ao descansar num banco de jardim, onde se sentou, percebeu mais tarde que as suas roupas claras agora eram verdes, por não ter reparado que o banco tinha sido pintado há pouco tempo?  O melhor é rir para não chorar!

Com as roupas sujas de tinta, Jocas queria, pelo menos, pôr a lavar a camisola que tinha por cima, na lavandaria mais próxima. Contudo, ele teve de ir a pé pois o passe estava na carteira.  Andou, andou, andou e, quando entrou na lavandaria, viu que, para pôr a roupa a lavar, precisava de moedas, algo que não tinha. O que mais haveria de acontecer? Nervoso com toda esta situação, Jocas só queria voltar para casa. Por sorte, ainda tinha o telemóvel com bateria e ligou para os bombeiros, para pedir que o levassem para casa e que lhe fizessem o favor de abrir a porta de casa. Os bombeiros acederam ao pedido e alertaram que demorariam uma hora  a chegar, ou seja, uma hora à chuva. Sim, como se não bastasse tudo o que tinha acontecido, o tempo tinha piorado.

Assim que chegaram os bombeiros, Jocas foi levado a casa e abriram-lhe a porta. Seria este serviço gratuito? Claro que não. Teve de ir buscar trezentos euros que tinha no seu mealheiro de poupanças para dar aos benditos bombeiros.

Já no conforto do lar, foi-se deitar, zangado com tudo o que lhe tinha acontecido. Praguejava com os seus botões e já fazia planos de não passear tão depressa pelo bairro. Não fosse o diabo tecê-las.

Na manhã seguinte, para sua surpresa, um dos velhotes das cartas, que o conhecia e sabia onde Jocas morava, bateu à sua porta insistentemente. Joca não esperava ninguém e estranhou. “Quem é?”, perguntava Joca do interior. “Sou o Manuel Martins, jogador de cartas… foi tudo uma brincadeira, homem. Abra lá a porta. Tenho aqui a sua carteira. Só queríamos ver a sua reação”.

Depois de tudo ficar esclarecido, ainda um pouco enervado, Jocas pensou que afinal, no meio de tanta desgraça, conseguiu encontrar motivos para rir!

Este texto é um dos conteúdos de Caminhos Improváveis, projeto de mediação cultural, no bairro de Campo de Ourique, com alunos e professores da Escola Secundária Josefa de Óbidos e com o Centro Intergeracional Ferreira Borges SCML, realizado no âmbito da Bienal Arte & Educação 2022/2023 do Plano Nacional das Artes. Contou com a colaboração do escritor Afonso Reis Cabral e do ilustrador João Catarino.