Miguel-Manso

Balada da Rua Damasceno Monteiro

 

ardia de amor pela casa
numa confusão de silêncios ou
dizendo de outro modo

afundava-se numa líquida recordação cardíaca

ocultos pólen pólvora fósforos
a má reputação dos dedos 
paixão cartografada remota
toponímia dos enganos

braço a braço crescia alto
o incêndio no interior do peito
deliberado ritual de lâminas e pele
a transparente certeza
da cicatriz

mas ardia de amor pela casa soturna
silêncio dando para o saguão luz muitíssimo 
extinta por sobre a larga extensão destruída

morrer, principalmente de amor, é
uma compendiosa tarefa doméstica

dentro do coração antigo
                            serei breve
 

Miguel-Manso, 
Contra a Manhã Burra (Poesia). Lisboa: Mariposa Azual, 2009, p. 90.