Teresa Rocha

Quando vi aquela árvore, parecia que o que estava diante dos meus olhos não era real. Não é que o velho (Deus o tenha) tinha razão?

Passei toda a minha vida em Campo de Ourique e nunca reparei neste pormenor. Como seria possível?!

Vou passar a contar a história.

Há uns tempos atrás, estava eu na flor da idade, fiz uma viagem ao Japão, movida pela beleza e história daquele país.

Durante a minha estada, no meu passeio diurno para conhecer a bela cidade de Tóquio reparei num senhor idoso, sempre muito sorridente, que comprava fruta fresca pela manhã no mercado. Nem me atrevo a tentar traduzir o que ele falava com as senhoras da frutaria, mas uma palavra que se repetia no seu discurso captou a minha atenção e ficou na minha memória: Hideki. Pelo contexto, percebi que se tratava do seu próprio nome.  Hideki falava bastante e uma fila considerável de clientes, que se queixavam da demora, estendia-se atrás do senhor.

Fiquei curiosa para saber por onde aquele homem andava, que hábitos tinha, tal era o entusiasmo com que narrava as suas experiências. O meu instinto de investigadora ativou-se de imediato e decidi seguir Hideki.

O senhor deambulava pelas ruas despreocupado o suficiente para não notar que eu o seguia há uns minutos. Interrogo-me o que pensava enquanto caminhava. Seria na esposa ou nos filhos? Ou noutros temas mais profundos? Qual filósofo, Hideki caminhava sem pressa e sem horário a cumprir e observava cada detalhe com uma atenção invejável, sem que nada o distraísse.

Ao fim de uns minutos, Hideki parou num jardim repleto de árvores e ficou estarrecido a olhar para uma árvore em particular. Não entendi o que tanto o cativava, mas ao desviar o meu olhar para o objeto do seu encanto, compreendi naquele momento o que tanto o prendia. A árvore era profundamente fascinante. De uma beleza rara, na verdade.

Hideki ali ficou por algum tempo a apreciar a árvore, de pé, como se a estudasse. Depois, sentou-se e começou a falar, desta vez, em inglês - “Your beauty is never enough” (A tua beleza nunca é de mais), repetia num murmúrio.

Olhei para o relógio de pulso e percebi que chegava a hora de continuar o meu caminho e, quando me preparava para sair discretamente, oiço atrás de mim, agora em português – “Então, já te vais embora?”. Era a voz de Hideki. Afinal, dera conta da minha presença. Mas o que me intrigava era como estava a falar português e sabia que eu era portuguesa.   Estava assustada.

Ele veio até junto de mim com o mesmo sorriso que eu presenciara naquela manhã e apresentou-se - “Sou Hideki. Significa árvore em japonês”. Agora sim, tudo fazia sentido. Convidou-me a sentar e explicou como provavelmente estaria a viver os seus últimos dias de vida.

Recuando no tempo, contou que nascera em Tóquio e que se tornara jardineiro. Dos muitos jardins que conhecia de uma vida, este era especial, precisamente por causa desta árvore. Já a sua avó, quando ele era pequeno, lhe falava da raridade desta espécie, sem nunca ter percebido o que tal significava especificamente. Desde então, Hideki agia como um guardião desta preciosidade.

Acreditava, no fundo, que uma beleza daquelas não podia ser única – “A minha avó dizia que existia uma árvore igual a esta algures no mundo. Nunca a encontrei, mas tu irás“.

Eu não percebi o que o senhor pretendia dizer, mas, tendo em conta a idade avançada, desvalorizei.

Passados todos estes anos, aqui estou eu a apreciar este tesouro da natureza que só eu sei que existe.

 

Este texto é um dos conteúdos de Caminhos Improváveis, projeto de mediação cultural, no bairro de Campo de Ourique, com alunos e professores da Escola Secundária Josefa de Óbidos e com o Centro Intergeracional Ferreira Borges SCML, realizado no âmbito da Bienal Arte & Educação 2022/2023 do Plano Nacional das Artes. Contou com a colaboração do escritor Afonso Reis Cabral e do ilustrador João Catarino.