Pedro Pinheiro
A saga do pato Jubiscreldo
Numa manhã de 25 de janeiro de 2015, um rumor circulava pelo bairro - um dos patos do lago do Jardim da Parada tinha desaparecido.
Eu, que até à data nunca tinha dado grande importância ao lago, fiquei intrigado com a notícia. Como e porquê teria o pato desaparecido? Na minha imaginação, decidi chamá-lo Jubiscreldo e lá fui eu colaborar nas buscas.
Falei com algumas pessoas do bairro para saber mais sobre o desaparecimento. Na igreja, disseram-me que o pato tinha sido levado para um ritual; no mercado, que tinha sido vendido para arroz de pato; no Jardim da Estrela, que tinha sido atacado pelo gangue adversário. Enfim, tantas versões só tornavam o caso ainda mais confuso. Pensei durante algum tempo em como poderia ajudar a encontrar um habitante tão importante da Parada.
No dia seguinte, fui tomar o pequeno-almoço à Padaria Portuguesa. Num tom mais alto, uma senhora criticava os trabalhadores por confecionarem empadas de carne de pato. Encontrei uma boa oportunidade para investigar. Seria apenas uma coincidência alguém reclamar tão veementemente sobre empadas de pato? Aproximei-me e a senhora explicou-me que adorava patos e costumava alimentar os do jardim, pelo que não simpatizava com a ideia de ver à venda empadas de pato naquele local. Depois de uma longa conversa, a simpática e misteriosa senhora perguntou-me se eu queria ver algo surpreendente. Seria o Jubiscreldo? Tinha de ir confirmar com os meus próprios olhos. Aceitei a proposta e a caminho da casa da senhora, senti alguma ansiedade. Assim que abriu a porta, o meu sorriso desvaneceu. Na sua sala, não faltavam bibelots e imagens de patos, mas nenhum sinal do Jubiscreldo. Fiquei a ouvir um pouco as histórias da senhora e a conhecer o seu encanto por patos, mas estava na hora de voltar para casa.
Ao passar pelo lago, olhei para a cabana dos patos e pareceu-me ver um pato familiar, aproximei-me e gritei - É o Jubiscreldo!
Toda a gente olhou para mim, sem perceber o meu entusiasmo, mas fiquei contente por ver o pato de volta. Aproveitei a presença dos cuidadores do Jardim, para perceber o que tinha acontecido. Afinal, tratava-se de uma simples ida ao veterinário e nada mais.
Esta história, que me deu entretenimento para dois dias, fez com que gostasse mais do jardim e, sobretudo, dos seus habitantes de “duas” patas, a quem continuo a dedicar alguma atenção sempre que por lá passo.
Este texto é um dos conteúdos de Caminhos Improváveis, projeto de mediação cultural, no bairro de Campo de Ourique, com alunos e professores da Escola Secundária Josefa de Óbidos e com o Centro Intergeracional Ferreira Borges SCML, realizado no âmbito da Bienal Arte & Educação 2022/2023 do Plano Nacional das Artes. Contou com a colaboração do escritor Afonso Reis Cabral e do ilustrador João Catarino.