Maria do Mar Simôa

O Senhor da Bicicleta

O senhor da bicicleta é uma figura incontornável de Campo de Ourique. É impossível não reconhecer esta personagem que pedala pelo bairro acompanhado de uma coluna de música enorme.

Senhor da bicicleta não é nome que se dê a alguém, mas desconheço se o senhor se chama João, Pedro ou outro. Afinal, o que importa? Para os moradores deste bairro será para sempre o senhor da bicicleta. Para facilitar a narração desta história, vamos chamá-lo Joaquim.

O Joaquim tem pouco cabelo, é solteiro e tem muitos amigos que jogam às cartas no Jardim da Parada, aos quais se junta de vez em quando. Mas mais do que entusiasta de jogos de cartas, é adepto do Benfica. Parece saber todas as músicas das claques e é fervoroso apoiante da sua equipa. Depois dos jogos, não perde uma ida à roulotte para beber uma cervejinha e comer uma bifana. Assim, saboreia melhor as conquistas do seu clube.

Depois de 3 horas diárias a espalhar felicidade pelo bairro, Joaquim chega a casa feliz. O seu pai costumava fazer o mesmo nos anos 80 e, para manter viva a tradição, mantém o hábito. Assim que chega a casa, tira os sapatos e vai ao frigorífico buscar uma mini. Bebe-a sentado no seu sofá (provavelmente mais antigo que ele), enquanto vê um filme qualquer que estava a dar na TV. De jantar, provavelmente come as sobras do dia anterior.

Nos dias de dérbi, Joaquim, como grande adepto que é, acorda cedo. Já nos temos cruzado no Trigo D’aldeia ao pequeno-almoço. Geralmente, pede um pão de alfarroba misto e uma meia de leite para despertar. Às vezes, é surpreendido pelo seu amigo Júlio, que também é um benfiquista e peras. Não estou a exagerar quando digo “e peras”. Júlio já foi expulso do estádio por invadir o campo, enquanto o jogo estava a decorrer, só porque queria cumprimentar o Odisseas.

Nestes dias especiais, Joaquim vai cedo para o estádio, onde reserva o seu lugar.  Chegada a hora da partida, o seu entusiasmo não passa despercebido. Canta a plenos pulmões e indigna-se quando o resultado final é “injusto”.

Hoje é domingo e ainda não dei conta da sua passagem pelo bairro. Pode estar ainda no seu momento de descanso. E se quando ele passar, eu pegasse na minha bicicleta e fosse atrás dele nas suas voltas e voltinhas?

16h da tarde. Um som à distância leva-me à janela. É a música “Pai da criança”. Só pode ser “o meu amigo” Joaquim! Calcei-me num segundo para ir buscar a bicicleta e seguir o som da música. É incrível ver como toda a gente que passa por ele, acena, ri, canta, dança, e até o cumprimenta! Este homem faz toda a diferença no bairro.

Já tinha passado 1 hora desde que estava a segui-lo e, por acaso, ele reparou em mim. Então, encostou a bicicleta e disse “A menina anda a seguir-me há algum tempo…”. Eu, atrapalhada, fui buscar coragem e respondi “Olá, pois ando! Sempre tive a curiosidade de saber onde vão dar as suas voltas, com quem fala, e hoje peguei nesta bicicleta e vim tentar descobrir”. Ele riu-se. Disse-me que há uns anos alguém fez o mesmo e ele achou engraçado. Esteve a contar-me imensas histórias da sua vida enquanto “senhor da bicicleta”.

A partir deste dia, passei a acompanhar o Joaquim (e não é que o senhor se chamava mesmo Joaquim?) nesta missão de espalhar felicidade pelas ruas de Campo de Ourique. Desde esse dia que não sei o que são tristezas. Adoro o Joaquim, adoro bicicletas, adoro Campo de Ourique. Mas será que me adoram também?

Este texto é um dos conteúdos de Caminhos Improváveis, projeto de mediação cultural, no bairro de Campo de Ourique, com alunos e professores da Escola Secundária Josefa de Óbidos e com o Centro Intergeracional Ferreira Borges SCML, realizado no âmbito da Bienal Arte & Educação 2022/2023 do Plano Nacional das Artes. Contou com a colaboração do escritor Afonso Reis Cabral e do ilustrador João Catarino.