Henrique Silvestre

A árvore que falava

Numa tarde fria de inverno, um senhor com uma certa idade passeava no Jardim da Parada e, de repente, viu uma árvore que tinha lianas que lhe faziam lembrar os cabelos de uma colega do seu tempo de escola. O senhor ficou a olhar para a árvore durante algum tempo, até que esta começou a conversar com ele. Nos primeiros segundos, pensava que estava a delirar e a ouvir vozes.

A árvore começou por contar calmamente que já estava naquele sítio há décadas e que ninguém acreditava que ela falava. Depois, curiosa, fez algumas perguntas ao senhor - se vivia no bairro há muito tempo, que idade tinha. Pasmado com o que estava a acontecer, aquele foi respondendo às perguntas.

- Vivo neste bairro há trinta anos e já tenho sessenta e cinco anos - disse ele.

A árvore ficou impressionada com o fato de ele viver no bairro há trinta anos e nunca o ter visto.

- É normal nunca me ter visto pois eu morava mais para o lado do cemitério e não vinha para este jardim – explicou o senhor.

Depois de uma longa conversa com a árvore, que já durava há horas, o senhor teve de ir para casa, mas não conseguia parar de recordar o insólito acontecimento daquela tarde. À medida que a noite se aproximava, o senhor pensava em várias perguntas que queria fazer à árvore no dia seguinte.

De manhã, levantou-se e foi tomar o pequeno-almoço a um café situado perto da árvore. Aproximou-se desta e perguntou:

- O que achavas do bairro há quarenta anos atrás?

A árvore respondeu calmamente:

- Há quarenta anos, o bairro era bem diferente, tanto a nível de edifícios, como de pessoas. Antes as pessoas eram mais bem-educadas, preocupavam-se umas com as outras, mas ultimamente já não se vê muito isso. Os edifícios também eram mais bonitos, com traços mais antigos.

- Humm, pois - concordou, cabisbaixo.

Foi então que o senhor se lembrou de um assunto muito importante que poderia preocupar e pôr em risco a vida da árvore.

- Árvore, sabias que estão para construir uma estação de metro neste jardim e que vão destruir algumas árvores?

- Sim, soube! Ouvia todos os dias os senhores ali ao fundo a jogar às cartas a falarem disso. Fiquei muito preocupada, pois estou aqui há anos e gosto muito deste bairro. Mas também fiquei a saber que já não será construída aqui a estação.

- Sim, também ouvi essa notícia. Mas só foi possível impedir a construção da estação devido aos residentes do bairro, que se opuseram e defenderam este jardim com unhas e dentes - respondeu o senhor alegremente.

A árvore manifestou o seu contentamento pela atitude dos residentes em defesa do jardim.

Depois de mais um dia de longas conversas, o senhor regressou a casa e, na manhã seguinte, ao ligar a televisão, viu a terrível notícia de que afinal o jardim seria destruído para a construção da tal estação. Assustadíssimo, saiu o mais rápido possível de casa para ver como estava o jardim. Quando lá chegou, já estavam as escavadoras e homens de motosserra a trabalhar. O senhor gritou com todo o seu fôlego:

- Não abatam essa árvore com lianas!!!

Os homens ficaram indignados com o grito e perguntaram ao senhor porque é que ele gritou para não cortar aquela árvore em específico.

- Porque essa árvore fala! - repetiu o senhor em desespero.

Os homens começaram a rir-se de tamanho disparate. Continuaram a cortar a árvore. O senhor, sem ver uma solução, correu em direção a esta para se despedir.

- Desculpa, árvore, não consegui fazer nada para impedi-los - disse tristemente, tocando no seu tronco ferido.

- Não te preocupes. Tu foste o único que me deu atenção neste último século. Estou muito grata por isso - respondeu a árvore, com as últimas forças que lhe restavam.

Então, a árvore com lianas acabou por ser cortada.

O senhor, arrasado, jurou para si mesmo que jamais voltaria a falar com uma árvore.

Este texto é um dos conteúdos de Caminhos Improváveis, projeto de mediação cultural, no bairro de Campo de Ourique, com alunos e professores da Escola Secundária Josefa de Óbidos e com o Centro Intergeracional Ferreira Borges SCML, realizado no âmbito da Bienal Arte & Educação 2022/2023 do Plano Nacional das Artes. Contou com a colaboração do escritor Afonso Reis Cabral e do ilustrador João Catarino.