Sebastião Fernandes

A sirigaita da cabine

Sempre me questionei sobre a importância das cabines telefónicas. Têm um ar moderno, mas arcaico simultaneamente. Despertam curiosidade, mas transparecem monotonia. Afinal, uma cabine foi concebida para apenas uma função, certo?

Nas ruas de hoje, elas jazem ali como fantasmas do passado, um lembrete diário que o mundo, em constante evolução, não pára.

As famosas cabines da PT deixaram uma marca no panorama nacional e hoje em dia é incomum encontrá-las. Com uma cor azul característica, sempre foram usadas para fazer chamadas telefónicas, mas, à medida que o mundo evoluiu, a tecnologia também o fez e o seu propósito tornou-se inútil.

No entanto, algumas reinventaram-se e encontraram um novo objetivo de utilidade – são as cabines de leitura. Desprovidas de telefone no interior, as prateleiras com contos e obras de todas as variedades temáticas enchem aquele pequeno espaço de vida. Com a vantagem de serem de acesso gratuito e à disposição de todos.

Infelizmente, não costumo ver muita gente a explorar as cabines, talvez por distração ou desconhecimento da riqueza que existe no seu interior, mas eu, movido pelo meu espírito aventureiro, tentei uma vez a minha sorte e entrei pela porta deste terrífico compartimento, depois de múltiplos “um, dois, esquerdo, direito, encolhe a barriga e estica o peito!”.

Ao passar a porta desta gloriosa besta, um cheiro peculiar invadiu as minhas narinas com todo o seu vigor, e reconheci-o de imediato, numa viagem mental à minha infância – o cheiro a livros antigos. Ainda de olhos fechados avistando o passado, um barulho vindo do chão trouxe-me ao presente.

Fiquei bastante intrigado quando vi uma miúda pequena, dos seus 7 anos, de cabelo e olhos castanhos. Estava claramente irritada com alguma coisa. Perguntei-lhe o que fazia ali, pois hoje em dia os mais pequenos nem sempre se interessam por leitura. Ignorando a minha presença, a menina pega nalguns livros e atira-os para trás de si, como se procurasse algo. Perguntei o que se passava e pedi-lhe para que parasse. 

A menina exclamou: “Estava aqui! Estava aqui!”, ignorando-me, mais uma vez. Toquei-lhe no ombro e perguntei-lhe do que é que ela estava à procura, ao que ela me respondeu: “Uma passagem!”.

Tentando suster o riso por dentro, mostrei a minha preocupação em relação aos pobres livros que nada lhe fizeram e expliquei-lhe que não ia encontrar nenhuma passagem ali. A menina disse que eu não sabia do que falava e continuou bruscamente a arrancar páginas e páginas até exclamar: “Encontrei! Finalmente, encontrei”,  gritava em êxtase, com  os olhos brilhantes de alegria.

Nenhuma passagem se abriu, ao contrário do que aquela esperança no fundo do meu coração esperava, tal era a convicção da menina (que até a minha alma convenceu por momentos). Tomei a decisão de abandonar a cabine e deixar a rapariga em paz, no seu mundo de imaginação.

Continuei o meu caminho até à casa dos meus avós, para ir almoçar. Passaram-se algumas horas, mas não consegui parar de pensar na sirigaita da cabine e na minha inesperada crença, seguida de decepção, em não encontrar nenhuma passagem mágica.

Depois de me despedir dos meus avós, já com a barriga cheia de bacalhau, saí para a rua, desta vez decidido em regressar à cabine e dar uma segunda oportunidade para encontrar a tal passagem misteriosa.

Chego à rua da cabine, onde ainda está a pequena miúda.

Desta vez, ela não parece irritada nem estava a arrancar páginas de livros, mas divertida e sorridente, a brincar lá dentro.

Aproximei-me, e perguntei-lhe se já tinha encontrado a passagem que procurava. Ela olhou para mim a sorrir e assentiu, dizendo para eu a ver também.

Olhei e era apenas mais um livro. Não era nenhuma passagem, mas porque tinha eu ainda esperança que fosse?

Ela ouviu o meu murmúrio e explicou-me que não era apenas mais um livro. Era uma passagem. Dececionado e com uma boa dose de realidade em mente, perguntei qual era o nome dela.

“Alice Costa Dias”, respondeu, enquanto mostrava a capa do livro. No canto inferior esquerdo, reparei nos nomes dos autores, Diogo Dias e Vera Costa, e apercebi-me de que este livro fora escrito pelos seus pais. Feliz pela experiência de leitura e por “estar de volta” ao mundo real com mais histórias para contar, a menina despediu-se de mim com um sorriso e saiu da cabine a saltitar.

Este texto é um dos conteúdos de Caminhos Improváveis, projeto de mediação cultural, no bairro de Campo de Ourique, com alunos e professores da Escola Secundária Josefa de Óbidos e com o Centro Intergeracional Ferreira Borges SCML, realizado no âmbito da Bienal Arte & Educação 2022/2023 do Plano Nacional das Artes. Contou com a colaboração do escritor Afonso Reis Cabral e do ilustrador João Catarino.