Nicole Ramos
Efeito-Cogumelo
Num dia de céu limpo no Jardim da Parada, estava um homem por volta dos seus 60 anos, sentado num banco, a comer uma sandes de fiambre e requeijão. Quando olhou para o chão, reparou nuns cogumelos com muito bom aspeto. Se ali estavam, num jardim com constante manutenção, provavelmente seriam inofensivos, pensou. Certificou-se de que ninguém passava e cortou-os. O aroma que exalavam era irresistível e seriam uma boa guarnição para o seu jantar.
À noite, a refeição começava a ser confecionada. Os cogumelos na frigideira novamente exalavam um odor de fazer água na boca, agora mais intenso. O senhor, que adorava cozinhar, não resistiu e provou um cogumelo – “hummmm, que delicioso!”, comentou. Animado, continuava na sua missão gastronómica, quando, uns minutos depois, se apercebeu de uma diferença na sua disposição. A visão ficou turva e lentamente foi perdendo a noção da realidade.
Nesse “novo mundo” em que agora se encontrava, tudo era diferente. O céu era verde e as árvores azuis. O sol era branco e as nuvens amarelas, mas sentia uma estranheza que não sabia descrever.
Nesta dimensão paralela, reconhecia um outro Jardim da Parada. Ali, caminhava ziguezagueante, até que reconheceu alguém que ao longe andava na sua direção. Esfregou os olhos na tentiva de ver melhor, mas em vão. O vulto aproximava-se e, a um palmo de esbarrar com a figura enublada, reconheceu a sua falecida mãe, de quem sentia muita saudade. Foi nesse momento que compreendeu um sentimento de vingança que teimava em intensificar-se. Alguém roubara a vida da sua mãe cedo de mais e o responsável continuava por identificar.
Emocionado, dirigiu-se à mãe, mas quando tentou abraçá-la, ela afastou-o sem piedade, num olhar repreendedor. Sem entender o que se passava, continuou o seu caminho, cabisbaixo.
Ao passar perto do café que ficava ali perto, uma televisão no interior dava o noticiário num volume elevado “… o suspeito dos crimes continua a ser procurado pelas autoridades. O seu nome é António Martins e tem cerca de 60 anos…”, referia a locutora. Atónito, o homem entrou pelo estabelecimento, com os olhos postos no ecrã, onde aparecia a sua fotografia. Ninguém reparou que ali estava, como se fosse invisível. Era procurado porquê? Que crimes tinha cometido? A sua mente estava a mil. E foi então que se deparou com a resposta “… indivíduo perigoso, suspeito da autoria de 18 homicídios qualificados…”, continuava a jornalista. Não podia ser, pensou. Toda a vida tinha sido um cidadão justo e honesto. Só podia ser um engano. No entanto, o medo e o pânico apoderaram-se da sua mente e o corpo entrou em ação. Saiu a correr pela rua fora. Só queria fugir de tudo e de todos.
Seria arriscado voltar para casa, mas não tinha alternativa e estava demasiado ansioso para pensar noutras opções. Procurava as chaves no bolso para abrir a porta mas as mãos tremiam sem controlo. Na tentativa de meter a chave à porta, esta destranca-se e abre-se. A sua esposa pergunta-lhe se queria sentar-se um pouco e lanchar pois parecia cansado. António estava boquiaberto e questionava a sua sanidade mental. A sua falecida esposa estava em casa? Viva? Tinha aberto a porta como antigamente e ainda lhe oferecia lanche?
Enquanto procurava uma resposta racional para todas as suas exasperantes dúvidas, surge novamente a sua amada esposa, envergando o seu habitual avental, agora numa postura séria e de sobrolho levantado, como que exigindo uma justificação – “Estás a ser procurado em Portugal inteiro, António??? O que fizeste tu? Queres explicar-me o que se passa?”. Mesmo tendo a certeza (teria mesmo?) de que tudo não passava de um grande equívoco, António pediu-lhe para manter a calma. Para todos os efeitos, não podia ser descoberto e não podia correr o risco de ser encontrado pela polícia. Pelo menos, não agora. Não sem antes parar e tentar entender todos estes acontecimentos bizarros e ilógicos das últimas horas.
Contrariamente ao que esperava, a esposa não pareceu compreensiva e, num ímpeto, pegou no telefone para denunciar o paradeiro do marido às autoridades. Num instinto de proteção, António pegou nas mãos da esposa e amarrou-as. O telefone tinha caído ao chão e do outro lado da linha só se ouvia “Estou? Está lá? Precisa de ajuda? Quem fala?”. Com a mão a tapar a boca da mulher, António pedia-lhe silêncio e desculpa em simultâneo. Não podia pôr em risco a sua liberdade e o direito a pensar na sua defesa naquele momento perturbador.
Ali permaneceu. As buscas para o encontrar mantinham-se e estranhamente não pareciam incluir a sua residência. Seria truque da polícia? Estaria já o seu prédio cercado, sem se aperceber? Eram demasiadas perguntas sem resposta.
Circunscrito aos seus 60m², continuava a seguir os canais informativos e foi assim que ficou a saber que as suas vítimas eram todas da mesma família, uma das mais ricas de Portugal. Um som na rua desviou a sua atenção do ecrã. Esse som cada vez era mais audível. Pareciam ser as hélices de um helicóptero. De baixo, ouviam-se sirenes de carros da polícia. Passos rápidos na escada, campaínhas a tocar em todas as portas. Os agentes estavam perto. Pediu à mulher, aterrorizada num dos cantos da sala, para se manter em silêncio. Mas era tarde de mais.
A porta foi arrombada e António preparava-se para enfrentar os agentes, quando… de repente, despertou! Ao seu lado, estava a enfermeira Rita a mudar o saco de soro. Esta, surpreendida com o despertar do seu paciente, olhou para ele e disse, sorridente – “Bem-vindo de volta, Sr. António!”
Este texto é um dos conteúdos de Caminhos Improváveis, projeto de mediação cultural, no bairro de Campo de Ourique, com alunos e professores da Escola Secundária Josefa de Óbidos e com o Centro Intergeracional Ferreira Borges SCML, realizado no âmbito da Bienal Arte & Educação 2022/2023 do Plano Nacional das Artes. Contou com a colaboração do escritor Afonso Reis Cabral e do ilustrador João Catarino.