Marta Matos

E o ecrã desligou

Numa noite chuvosa e fresca, a rapariga corria pela Rua Ferreira Borges, como se participasse numa corrida para ganhar o grande prémio final.

A jovem adolescente, de pele morena, cabelos e olhos cor de mel, que brilhavam tanto como o sol quando a luz dos candeeiros da rua os penetrava, vestida com um fato de treino lilás, sozinha, corria movida pelo anseio de se afastar rapidamente do velho edifício amarelo com portas de madeira de pinho, nas quais estava exibida a placa “Hospício para jovens problemáticos de Campo de Ourique”.

Todas as pessoas do bairro conheciam bem aquele edifício e estavam cientes da obrigação de reportar de imediato às autoridades todos os incidentes testemunhados que pudessem estar relacionados com o Hospício.  Em todas as ruas, vários cartazes recordavam esta regra aos moradores.

A pessoa encarregada de reunir estas informações era um homem carrancudo, com um bigode tão grande que chegava à ponta das orelhas. Estava a par de todas as tentativas ou concretizações de fuga do Hospício. Conhecia a maioria dos jovens da instituição e a situação difícil em que muitos se encontravam. Desconhecia, por enquanto, a fuga de Rita. Era de noite e a rua estava vazia.

Focada na sua fuga, Rita arfava de tanto correr e chegou ofegante ao Jardim da Parada. Nem reparou que algo mudara no Jardim, tal era a imensidão de sombras e reflexos de luz. A sua preocupação era perceber se alguém a seguia ou desconfiava da sua presença ali, a altas horas da noite.

O silêncio da natureza e a brisa que roçava nos ramos das árvores tranquilizaram--na. Agarrada aos joelhos, baixou a cabeça para recuperar o fôlego, mas rapidamente se elevou num susto, quando sentiu uma mão a pousar no seu ombro esquerdo e uma voz que lhe perguntava se estava tudo bem. Ia para dar um grito, mas abafou a voz a tempo, selando os lábios que insistiam em mostrar o espanto perante o que via: Maria da Fonte tinha ganho vida. A estátua não estava sequer no seu local original, mas sim no meio do jardim. Rita, atónita, pensava que estava a delirar. À sua volta tudo ganhava vida lentamente, como se a natureza, sem medos, mostrasse a sua verdadeira vida. Aquela que está proibida aos homens de conhecer. Maria da Fonte explicou que estava a decorrer o habitual convívio noturno do Jardim, onde todos os elementos participavam de jogos e tertúlias. A estátua confessou que adorava uma boa discussão de ideias e contra-argumentar opiniões mal fundamentadas dos seus colegas de jardim, chamando-os à razão.

 A jovem estava confusa. Na busca de uma explicação para o que presenciava, viu-se de repente tomada nos braços de Maria da Fonte, num claro convite para dançar. Rita deixou-se levar pelo sonho que vivia e as duas rodopiavam numa dança mágica. As flores, as árvores e até os cogumelos com os seus capacetes naturais acompanhavam-nas no movimento esvoaçante, com os seus ramos e pétalas. Ninguém mais ouvia a música de Beethoven, a não ser Rita e os seus novos companheiros.

No lago, os patos voavam e agitavam as águas, estranhamente criando ondas enormes que transbordavam e molhavam as roupas de Rita. Sem que nada o previsse, uma onda de maiores dimensões veio na direção de Rita, que, para se afastar, corre para o coreto. A onda insiste em perseguir Rita. Quase a chegar à estrada e saltar para o outro lado da rua, um teto de água ergue-se sobre a jovem, como se a fosse engolir e, subitamente, Rita vê-se entrar num mundo totalmente diferente.

Nesta nova dimensão, o céu era verde e a erva azul, o sol branco e as nuvens amarelas, os troncos das árvores laranjas e as folhas castanhas. Não estava frio. Sentia-se confortável como se estivesse no sofá embrulhada numa manta. Um burburinho de vozes soava ao longe. Rita vira-se para trás e vê muitas pessoas, todas elas com fatos de treino iguais ao seu, mas com cores diferentes, e reconheceu-as:  eram os seus companheiros do Hospício, que a saudavam, alegres com o reencontro num espaço tão sereno.

Rita começou a sentir-se tonta. Teve a sensação de ver uma luz apontada para ela a balançar de um lado para o outro, como fazem os médicos aos pacientes, mas do mesmo modo que veio, desapareceu rapidamente. Também os seus colegas não estavam mais ali e, achando-se sozinha, inicia uma nova fuga, sem saber ao certo a razão.

As ruas não eram as que conhecia, mas certamente iriam dar a algum lado. Para seu espanto, avista o Centro Comercial Amoreiras. Não conteve o entusiasmo ao reconhecer algo familiar, mas podia ser perigoso entrar… afinal, oficialmente, estava em fuga e este é um local muito movimentado. Esta consciência, no entanto, não foi suficiente para travar a entrada no Centro. Uma energia chamava-a e Rita não conseguia encontrar explicação. Pé ante pé, dirige-se à porta central e, ao abrir, todo um mundo psicadélico estava em ação - os trabalhadores eram lontras, as lojas vendiam roupa com tamanhos e formatos que só girafas conseguiam vestir e os restaurantes só vendiam ervas, mas de todos os tipos, de morango, ananás e até de lichia. Nada fazia sentido.

A jovem voltou a sentir-se tonta e estava muito cansada das pernas, tinha dores muito desconfortáveis. Do nada, apareceu uma raposa vestida de branco, talvez com uma camisa ou um vestido. Rita, atordoada e não propriamente espantada pelo facto de ver uma raposa vestida, olhava fixamente para uma mancha branca no meio da cor avermelhada do pelo. Lentamente, o fundo começou a perder a cor. Rita, desconfortável, tremia de frio. Uma enorme dor na cabeça, semelhante a uma pancada bem forte, invadiu o seu corpo.

E assim terminava mais uma sessão. O ecrã do laboratório desligou-se e os sensores interromperam a transmissão das ondas cerebrais.  Agora Rita já não sonhava e despertou de mais um episódio de sonambulismo.

Este texto é um dos conteúdos de Caminhos Improváveis, projeto de mediação cultural, no bairro de Campo de Ourique, com alunos e professores da Escola Secundária Josefa de Óbidos e com o Centro Intergeracional Ferreira Borges SCML, realizado no âmbito da Bienal Arte & Educação 2022/2023 do Plano Nacional das Artes. Contou com a colaboração do escritor Afonso Reis Cabral e do ilustrador João Catarino.