Mariana Cruz
Pensamentos
Alice chega a casa depois de um longo dia de trabalho, muito cansada e vai dormir.
No dia seguinte, ao acordar, vê o seu marido Paulo a fazer o pequeno-almoço, liga a TV para ver as notícias e em direto passava uma reportagem que dava conta de um ataque terrorista numa escola de Lisboa. Incrédula, viu que se tratava da escola do seu filho de 17 anos. A chávena de café caiu-lhe das mãos. Saiu de casa de imediato, acompanhada do marido.
Chegados à escola, são informados da existência de uma vítima mortal entre os estudantes e que o atirador tinha sido abatido pela polícia. Alice e Paulo, horrorizados, já imaginavam o seu filho sendo o estudante atingido por este terrível infortúnio. Mas a dura realidade estava ainda por desvendar. O seu filho era afinal o atirador. Não era a vítima. Era o culpado. Perplexos, Alice e Paulo deixaram-se cair desamparados e sem perceber o que acontecera, questionavam os agentes. Estariam a ouvir bem? O seu filho, tão bom estudante, e sociável, teria cometido tal ato desumano? Nada fazia sentido.
Sem saber porquê, Alice foi invadida por uma sensação de alívio e de uma certa leveza. À medida que as horas passavam, a angústia suavizava-se. Depois de um longo interrogatório, regressava a casa com uma estranha impressão de que tudo voltava ao normal. Olhava em volta e apreciava o movimento das ruas, das pessoas, como se o horror vivido nunca tivesse acontecido. Caminhava sozinha pela rua, observava as montras das lojas na tarde quente de maio.
Um homem que também passava na mesma rua, parou, intrigado a olhar para Alice, não compreendendo a sua presença. Aproximou-se e sem a assustar, questionou “Por aqui??? Como é possível, Alice? O Paulo não está contigo?”. Alice reconheceu o seu pai e respondeu “Não sei do Paulo. Eu estou de regresso a casa e a disfrutar deste fim de tarde maravilhoso”. O pai, percebendo que a sua filha estaria talvez em estado de choque, optou por levá-la para casa. Lá estaria a sua mãe para lhe dar o devido apoio e reconforto.
Alice estava leve que nem uma pena e nada parecia afetá-la. Na verdade, até parecia estar a viver um momento de felicidade.
- Oh minha querida! – disse a sua mãe, chorosa, assim que a viu entrar – que desgraça nos foi acontecer?
- Estou bem, mãe. Está tudo bem – respondeu com segurança e abraçando fortemente a mãe, como se não a visse há anos.
Instalada no sofá dos pais, Alice olhava as paredes da sala como se fosse a primeira vez. Os olhos percorriam cada pormenor e cada recanto. Ao fundo, uma pequena porta parecia desenhar-se na parede perto da mesa de jantar. Os pais cochichavam na cozinha, intrigados com a calma de Alice. Com a certeza de que ninguém daria conta, Alice levanta-se devagar e pé ante pé, dirige-se à porta mágica. Toca na porta e esta abre-se. Tudo escuro… o que estaria do outro lado? Hesitante, decide arriscar e entra numa imensa escuridão. Não via nada, mas um som estranho e contínuo parecia vir de longe. Passo a passo, avançava no escuro. O som aumentava e o escuro dava lugar a cores tímidas. Para onde iria? Estava numa outra dimensão certamente. De repente, um vulto passa por Alice. Assustada, sente outra presença pela sua esquerda. Determinada a sair dali, corre em direção ao vazio, quando, de repente, se depara com outra porta, desta vez entreaberta. Ao abrir, mal consegue encarar a intensa luz. De olhos franzidos e mão na testa, tenta perceber onde está. Uma longa rua estende-se à sua frente e, à distância, acenando, estavam os seus pais. Mas, num piscar de olhos, desapareceram.
Alice, desorientada, vai andando pela rua sozinha, quando uma estranha luzinha azul surge a flutuar à sua frente. Parecia que a luz a puxava. Tenta tocar, mas a luz desaparece e quase como numa brincadeira, a luz vai aparecendo e desaparecendo, guiando Alice. Seria o seu filho? Desesperada, começa a chamar por ele, aos gritos. Entre movimentos descontrolados, uma voz acalma Alice. Era a sua médica a chamá-la. Tinha começado a hora de almoço no hospital Júlio de Matos.
Quando regressou ao quarto, Alice voltou aos seus pensamentos. Desde a morte dos seus pais há 3 anos, Alice continuava a acreditar que estes estão vivos, que não é divorciada de Paulo e que tem um filho.
Este texto é um dos conteúdos de Caminhos Improváveis, projeto de mediação cultural, no bairro de Campo de Ourique, com alunos e professores da Escola Secundária Josefa de Óbidos e com o Centro Intergeracional Ferreira Borges SCML, realizado no âmbito da Bienal Arte & Educação 2022/2023 do Plano Nacional das Artes. Contou com a colaboração do escritor Afonso Reis Cabral e do ilustrador João Catarino.