Leonor Reis

A minha felicidade é só com ela

Como é que vim aqui parar? Bem, essa é uma questão curiosa, não? Não são todas as pessoas bondosas que vão para o céu, independentemente da sua vontade? Queres saber porque é que eu, um anjo, que vive em paz no céu, o sítio mais tranquilo e cheio de felicidade de todo o universo, não estou feliz com a minha vida atual? Bem, é uma história longa e um pouco complicada.

Para começar, eu antigamente era um fantasma. Um Jinn, mais precisamente. Vivia uma vida bem isolada, mas recebi uma segunda oportunidade dos céus.

Renasci neste corpo e vivia uma vida normal, até que um dia a vi. A rapariga que estava sempre presa na minha mente. Eu lembrava-me dela, de certa forma. Sabia que teria de me aproximar dela, mas como? Vi-a pela primeira vez na escola e não a perdia de vista nos intervalos nem à saída do portão.

Vou ser sincero. Nunca gostei de socializar. Fazia-o por obrigação. Mas como me aproximaria dela, se ela também não era de grandes convívios? E se não quisesse falar comigo?

Com o passar do tempo, percebi que ela também tinha reparado em mim. Ela olhava para mim e sorria. Sempre tive sentido de humor e ela achava graça às minhas piadas, mesmo à distância, como se me ouvisse de perto. Ficava feliz por vê-la feliz. Mesmo quando ela chorava, conseguia animá-la, ao longe. Esse riso era o mais puro e perfeito.

Finalmente, um dia tomei coragem para falar com ela. O meu coração batia tão rápido que parecia que ia saltar do peito. Como é que alguém consegue criar este efeito em mim? Ainda que tímida, de imediato senti que conseguíamos conversar e ter afinidade. Dávamo-nos bem e começámos a namorar. Ela era simplesmente a minha razão de viver.

 

Este texto é um dos conteúdos de Caminhos Improváveis, projeto de mediação cultural, no bairro de Campo de Ourique, com alunos e professores da Escola Secundária Josefa de Óbidos e com o Centro Intergeracional Ferreira Borges SCML, realizado no âmbito da Bienal Arte & Educação 2022/2023 do Plano Nacional das Artes. Contou com a colaboração do escritor Afonso Reis Cabral e do ilustrador João Catarino.