Jessika Lohan
Faz uma semana desde que voltei de Nova Iorque. Estava com saudades de casa.
Acabei a licenciatura em Gestão e agora é tempo de procurar emprego. Às quatro da tarde, tenho de estar no escritório onde terei a minha primeira entrevista de emprego.
Estou parada em frente à Igreja de Santo Condestável. As memórias do tempo do meu secundário vieram à tona, assim de repente.
***
Primavera do décimo ano. Foi um tempo muito difícil. Costumava ficar em frente à igreja com os meus “amigos” a almoçar uns hambúrgueres do Burger King. Na altura, não me sentia animada. Apenas ia pelos hambúrgueres, pois amigos não tinha. Era o que eu pensava na altura.
Andava com alguns problemas de ansiedade e depressão, para ser mais concreta. Lembro-me de que foi muito difícil e que muitas vezes pensei em simplesmente desistir, mas nunca o fiz, pois nunca fui covarde. Achava que, se não desistisse, algum dia me sentiria melhor e que toda a angústia acabaria. Achava que faria o meu melhor sem que nada nem ninguém se metesse na minha vida, que atingiria o sucesso na vida e mostraria a todos que não preciso de ninguém para ser feliz. Estava enganada.
Mais tarde, o meu estado psicológico melhorou e estava muito mais contente e confiante. Já conseguia socializar e dava mais importância a tudo à minha volta - família, amigos, casa, escola.
No outono, quando já estava no décimo primeiro ano, amigos e felicidade não me faltavam. Eu e os meus amigos íamos sempre para as escadas da igreja conversar, ríamos e às vezes até chorávamos, não de tristeza, mas sim de rir até nos doer a barriga. Adorava passar tempo com eles. Éramos mesmo tontos, mas era aí que estava a graça. Ríamos que nem doidos, por tudo e por nada.
Na altura, falava com um rapaz de quem gostava há algum tempo. Nunca tive coragem de lhe dizer, mas as minhas amigas insistiam para que eu tentasse. Acho que foi o suficiente para me deixar confiante. Fui eu que tomei a iniciativa para conversar, pois caso contrário, ele nunca notaria em mim. Acabámos por nos tornar bons amigos e saíamos bastante os dois.
Por vezes, ele deixava-me na dúvida se realmente queria ser meu amigo ou se também estava interessado. Tentava não ligar muito, pois ouvia dizer que tentava o mesmo com todas. Éramos amigos e nunca acreditei que ele fosse capaz de fazer uma coisa dessas.
Uma vez, consegui um 20 a economia e ele quis oferecer-me um Bubble Tea pelo meu esforço. Aceitei. Nessa tarde, depois das aulas, apreciámos o Bubble Tea sentados nas escadas da igreja. Parecia que tinha vivido um sonho que não duraria muito mais. Um dia, ele decidiu não me falar mais e soube que já tinha outra pessoa.
Vivi emoções que já não sentia há algum tempo - emoções e sensações que no passado me tinham feito ver a vida a preto e branco, emoções que apagaram toda a cor da alegria. A par com estas sensações, algo de novo surgia, um sofrimento causado pelo amor. Pensava que a culpa era minha por ter voltado a confiar nas pessoas e ter estragado todos os meus planos de viver apenas por mim e ter notas incríveis sem me distrair com rapazes e essas coisas típicas de adolescentes.
Durante uns bons meses, para além de todos aqueles pensamentos negativos, vi que muita coisa mudou. As noites passaram a ser momentos de vulnerabilidade mental. Era incapaz de dormir à noite pois a minha mente tornava-se o local onde todos os pensamentos obsessivos e sentimentos de culpa se reuniam. Sentia as lágrimas escorrer-me pelo rosto lentamente. Era simplesmente horrível tentar chorar em silêncio sem que ninguém me ouvisse. Não queria deixar a minha mãe preocupada.
Basicamente, por não dormir à noite, passava o dia ensonada e não conseguia focar-me nas aulas. Os vinte valores que tinha nos testes passaram a treze. Gradualmente a minha motivação desaparecia, assim como a água quando evapora, e o sentimento de não ser suficientemente boa aumentava. Todos os dias a vontade de ir para a escola era menor, porque eu simplesmente não conseguia acompanhar as aulas. O meu corpo podia estar na sala de aula mas a minha mente viajava. A ansiedade invadia-me de calafrios, dificuldades para respirar, tremores nas mãos, nós na garganta e dores no peito que mais pareciam com facadas lentas no coração.
Afinal a “eu” do décimo ano gabava-se de como tinha estado certa aquele tempo todo e que viver como tinha vivido até ao momento em que o meu amigo deixou de me falar era muito mais perigoso, pois todas as minhas fraquezas permaneciam expostas. Não queria voltar a passar pelo que tinha passado no décimo ano, por isso, após vários meses, abri os olhos para a realidade e percebi que a vida segue em frente pois o tempo não espera por nós. Era hora de retomar o controlo da minha vida, para poder atingir o sucesso que tanto desejava ter.
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De volta ao presente, depois de ficar presa nestas memórias, apercebo-me de que esta igreja é o local que mais marcou o meu passado, de forma positiva e de forma negativa.
Esta igreja simboliza momentos da minha vida em que mais cresci e aprendi sobre a vida.
Ahhh… Já estou atrasada para a entrevista. É melhor deixar as lembranças para trás e ir à procura de um futuro onde poderei satisfazer os desejos de todas as minhas versões passadas, presentes e futuras.
Este texto é um dos conteúdos de Caminhos Improváveis, projeto de mediação cultural, no bairro de Campo de Ourique, com alunos e professores da Escola Secundária Josefa de Óbidos e com o Centro Intergeracional Ferreira Borges SCML, realizado no âmbito da Bienal Arte & Educação 2022/2023 do Plano Nacional das Artes. Contou com a colaboração do escritor Afonso Reis Cabral e do ilustrador João Catarino.