Beatriz Silva
Numa manhã tempestuosa de segunda-feira, cerca das sete horas, estava Vicente, ainda meio adormecido, deitado na sua cama. Nem os ruidosos gritos da sua enraivecida mãe conseguiam obrigar o rapaz a levantar-se. O cansaço era imenso. O barulho da chuva e o vento a abanar as folhas só embalavam cada vez mais Vicente.
“Levanta-te que já são horas!”, “Vais chegar atrasado à escola!” e “Logo à noite a gente conversa” eram algumas das frases mais gritadas pela já exausta mãe.
TUNTUM!
Cobertores pelo ar, o cão a saltar, uma forte luz a entrar pelas pequenas frechas dos estores da janela do quarto de Vicente. Este trovão foi suficientemente forte para o rapaz se levantar de rompante, graças ao susto que acabara de apanhar.
“Estava a ver que hoje não te levantavas!”, resmungou a mãe, já furiosa com a situação. Mas Vicente não tinha forças para responder. Por sua vontade, ainda estaria deitado na confortável cama de onde tinha sido obrigado a levantar-se.
Ainda meio desorientado, Vicente não teve outra escolha senão arranjar-se para ir para a escola. Afinal, não tinha outra opção. Cumpriu, então, a sua rotina de sempre. Tomar o pequeno-almoço, tomar banho, vestir-se, lavar os dentes, pentear-se, preparar a mochila e sair. Uma rotina tão simples, mas que aos olhos do jovem rapaz não parecia tão fácil de seguir.
No banho, apoiado com a cabeça na parede, água a ferver, com o shampoo a escorrer pelos seus grandes fios de cabelo até chegar ao seu pescoço, só pensava no momento em que poderia descansar novamente.
Eram já sete e meia da manhã, e começava a tornar-se apertado para o jovem chegar a horas à escola.
A mãe desistira de tentar despachar o rapaz. Para ela, já era mais que certo que Vicente não ia chegar a tempo à sua primeira aula. Não valia a pena insistir mais.
O rapaz já nem para se vestir tinha paciência. Deu por si com um blazer, calças de fato de treino, uma meia de cada cor e chinelos. Como a vontade para se voltar a vestir outra vez era nula, deixou-se ficar assim e saiu.
Ainda aluado, enquanto caminhava, passou por uma loja que lhe parecia interessante. Apesar de ainda estar fechada, o aspeto exterior cativava a sua atenção.
Durante as aulas, não conseguia pensar noutra coisa. O ar misterioso da loja despertara a sua curiosidade.
Terminado o dia de aulas, o rapaz não teve dúvidas. Tinha de ir àquela loja. Ao chegar à porta, estava com algum receio pois apesar de parecer interessante, havia algo de estranho e aterrador - aranhas em todos os cantos pelos quais passava, janelas partidas, quadros tortos. Estes eram alguns dos pormenores a que o rapaz mais conseguia prestar atenção.
Vicente não podia acreditar no que estava a ver! Sombras escuras em movimento passavam diante dos seus olhos. Seria aquilo um vulto? O rapaz nunca se tinha assustado tanto. Nem mesmo com o trovão que ouvira de manhã. Apesar do receio que fazia tremer as suas mãos, a curiosidade inquietante de Vicente era maior do que qualquer outra coisa. Ele sentia uma enorme vontade de ver onde aquela aventura iria dar.
Continuou a olhar à sua volta. Parecia que quanto mais olhava, mais vultos via, mas um chamou a sua atenção. Não se mexia. Algo estava errado e só havia uma forma de descobrir o quê. Devagar, passo a passo, foi-se aproximando daquela grande sombra negra e esfumada. Assim que chegou mais perto…
TRIIIIIIIM! “Acorda, Vicente!”, gritou a mãe.
O rapaz deu um salto da cama para se despachar para mais um dia de escola.
Este texto é um dos conteúdos de Caminhos Improváveis, projeto de mediação cultural, no bairro de Campo de Ourique, com alunos e professores da Escola Secundária Josefa de Óbidos e com o Centro Intergeracional Ferreira Borges SCML, realizado no âmbito da Bienal Arte & Educação 2022/2023 do Plano Nacional das Artes. Contou com a colaboração do escritor Afonso Reis Cabral e do ilustrador João Catarino.