Beatriz Cruz

Lisboa de Hoje

Hoje é dia 31 de outubro. Nada teria de especial se não fosse constantemente recordado para onde quer que olhe, que “é” Halloween. Uma palavra estrangeira para designar uma tradição estranha com letras desnecessárias que coincide com o último dia de outubro, quando já nos aproximamos também de uma outra “efeméride” importada em que se compram os preços ao invés dos produtos, a Black Friday.

Lisboa viu sair marinheiros e viu regressar dos mais corajosos heróis, mas, hoje em dia, a cidade é touro numa tourada e vê a sua cultura à mercê dos interesses turísticos que se sobrepõem e diluída em tradições estrangeiras que a descaracterizam.

Antes, ao sair de casa para ir à loja de costura onde a minha mulher trabalhava, ouvia as crianças a brincar com berlindes no Jardim da Parada e este dia era mais um como tantos outros. Hoje, ao passar com o mesmo intuito de visitar a minha mulher, tudo o que ouço são filas de crianças em sacos de batatas cinzentos e encarnados ou mascaradas de alguma forma, a falar e a agir de forma estranha, para assustar quem passa.

Hoje o meu propósito não seria apenas visitar a minha mulher. Era levar o livro que deixei na mesa do escritório para lhe ler um pouco, como às vezes fazia. Não é propriamente um escritório mas um quarto onde armazeno livros,  tomo café e, mais do que me agrada admitir, caio no sono numa posição de contorcionista de circo.

Atravessei o jardim todo, o que, para alguém com a minha idade, é uma distância um tanto significativa, mas não me perdoaria se aparecesse sem o livro. Quase a chegar a casa, vejo a minha vizinha a sair do prédio e a saudar-me na sua língua. Pensei como no meu prédio e no bairro, cada vez se vêem menos portugueses por não conseguirem  ter rendimentos suficientes para comprar casa, sobretudo se forem jovens. Dá que pensar.

Entrei em casa e peguei no livro que descansava ao lado de um jarro com uma margarida que comprei ontem.  Saí e fiz o percurso que já conheço tão bem.

Depois de passar as portas pretas do mesmo edifício branco,  chego ao ponto de encontro de costume e tenho a minha doce Margarida à minha espera, sempre no mesmo lugar. Hoje não está tanta gente como se esperava num dia destes pois na véspera do dia de Todos os Santos geralmente há bastante afluência aos cemitérios.

Percorro os jazigos à entrada sem sequer virar a cara, ora porque o meu corpo já não se move como movia, ora porque não tinha ninguém a quem devesse lealdade.

Vejo a minha flor erguida sobre a terra onde outros dizem estar enterrada. Na minha opinião, ela é demasiado bela para ser vista por olhos que agora namoram com ecrãs.

Sentámo-nos, eu e a minha Afrodite, num banco que ali há.

Começo a ler-lhe o livro, que não é muito longo, e quando acabo, não se ouve uma única voz. A Margarida não diz nada, mas também não precisa. «Para bom entendedor, meia palavra basta». Quando se trata da minha deusa, melhor entendedor jamais existirá.

Pelo canto do olho vejo um pombo a olhar para nós. Decerto gostou do livro. Por acaso, tenho um pedaço de pão no bolso do meu casaco, caso tivesse fome. Estendo ao pombo o pão, que aceita de imediato, voando para a minha mão. Comeu tão rápido que não tarda nada estava a bicar--me, mas eu não me importei.

Fez-se tarde. O tempo passa a correr quando menos se quer. Tive de me despedir da minha Margarida, mas o pombo ficou comigo. Dei-lhe o nome Rafael, para estarmos a condizer.

Voltei para casa de pombo na mão e, ao passar, recebia olhares, mas nenhum relevante o suficiente para ser descrito. Mal podia esperar para ver a cara da minha vizinha, quando o Rafael refutasse o barulho que o seu cão faz a andar no piso de cima.

Este texto é um dos conteúdos de Caminhos Improváveis, projeto de mediação cultural, no bairro de Campo de Ourique, com alunos e professores da Escola Secundária Josefa de Óbidos e com o Centro Intergeracional Ferreira Borges SCML, realizado no âmbito da Bienal Arte & Educação 2022/2023 do Plano Nacional das Artes. Contou com a colaboração do escritor Afonso Reis Cabral e do ilustrador João Catarino.