Adriano Reis
Numa manhã solarenga de quarta-feira em Campo de Ourique, saiu de casa o senhor Alfredo para o seu habitual passeio higiénico matinal pelo bairro.
Ao passar junto à pastelaria Aloma, foi abordado por um homem um pouco peculiar que lhe perguntou se conhecia o escritor Guerra Junqueiro. “Há mais luz nas 24 letras do alfabeto do que em todas as constelações do firmamento”, declamava, deslumbrado, o homem de pequena estatura.
Alfredo, surpreendido, e ainda tentando absorver cada palavra, acenou que sim, contudo, pretendia continuar a sua caminhada e focou-se nos seus pensamentos. O pequeno homem, de olhar vivo e atento, não desistira da sua missão e durante algum tempo foi acompanhando Alfredo, inundando-o de inúmeras citações literárias de vários autores, até a sua voz desaparecer na distância.
Naquele dia, optou por uma alteração de percurso e passou à porta da igreja. Parou e decidiu entrar. Nem se lembrava da última vez em que lá tinha estado, mas, ao entrar, sentiu algo diferente. Apesar de por fora parecer estar vazia, no interior estava repleta de gente. Alfredo foi caminhando calmamente pela nave lateral, olhando ao seu redor até que se aproximou do altar. Uma luz fora do vulgar captou de imediato o seu olhar. Sem saber o motivo, quis tocá-la e assim fez. Nada sentiu, mas percebeu que, naquele momento, ele próprio se tinha transformado em luz. Não podia acreditar no que acabara de acontecer. Sentia-se confuso. Aproximou-se de algumas pessoas, mas ninguém o conseguia ver.
Alfredo, qual um raio de sol, saiu da igreja e vagueou pelas ruas de Campo de Ourique, sem saber o que fazer. Tudo o que via era claro, muito claro. Estranhamente, sentia-se também extremamente relaxado e quente. Sem entender o que acontecera, optou por continuar a observar o seu bairro, em busca de um sentido para este fenómeno. Mas tudo o que via lhe parecia bizarro. Aborrecido pela estranheza de assumir outra forma, queria regressar a si próprio, mas como fazê-lo? Continuava a caminhar pelas ruas e procurava lembrar-se de alguma coisa que o pudesse ajudar, mas a única coisa que lhe vinha à cabeça eram memórias de infância. Lembrou-se daquela vez em que caiu a andar de bicicleta porque estava distraído a olhar para os seus amigos. Todas estas memórias despertavam uma intensa nostalgia, uma saudade de ser criança.
Perdido nos seus pensamentos de criança, a tristeza foi-se instalando lentamente e as lágrimas invadiram o seu olhar e escorriam no seu rosto. Qual não foi o seu espanto quando notou que as suas lágrimas flutuavam e uma delas luzia… achou que estava a enlouquecer. Na verdade, era uma lágrima de vidro que continha as suas memórias de infância. Tocou para examinar melhor, e nesse momento, Alfredo foi transportado pelo tempo e regressou à sua infância. Deixou-se levar pela magia do momento.
Foi assim que Alfredo passou um dos melhores dias da sua vida, com os seus melhores amigos de infância a andar pelas ruas onde nasceu. Ao voltar à casa dos tempos antigos, lembrou-se das vezes em que lá tinha entrado e de todos os incidentes que aquelas escadas lhe suscitavam. Observava atentamente as paredes e o teto velho, maravilhado com recordações que agora pareciam novamente reais. Sorriu, feliz.
No dia seguinte, de volta à sua realidade adulta, ainda se lembrava, um tanto perturbado, da experiência que vivera horas antes. Saiu à rua, apreensivo, olhando para cada pormenor do bairro, mas rapidamente percebeu que tudo tinha voltado ao normal.
Este texto é um dos conteúdos de Caminhos Improváveis, projeto de mediação cultural, no bairro de Campo de Ourique, com alunos e professores da Escola Secundária Josefa de Óbidos e com o Centro Intergeracional Ferreira Borges SCML, realizado no âmbito da Bienal Arte & Educação 2022/2023 do Plano Nacional das Artes. Contou com a colaboração do escritor Afonso Reis Cabral e do ilustrador João Catarino.