4 mai 2021

Temos a sorte de trabalhar com livros todos os dias

Em alguns países da Europa Central há um estado de ânimo a que se chama “cansaço da primavera”, depois de muitos meses seguidos sem sol.

Os primeiros dias suaves não dão energia, mas sim fadiga e melancolia. O corpo sabe que pode confiar na benevolência da primavera – e é quando se deixa bater pela ressaca.

Entremos então, também aqui, devagar nos dias claros. Façamos uma limpeza geral, como no poema de Amalia Bautista, ou melhor ainda uma mudança. Se pudermos imitar no dia-a-dia um certo tempo da leitura, ganharemos o fôlego que faz falta, depois do longo mergulho.

Encontram-se por fim pessoas que passaram meses atrás do ecrã. Estamos num mesmo lugar ao mesmo tempo. Sente-se na sala o magnetismo do reencontro.

Temos a sorte de trabalhar com livros todos os dias. O tempo da leitura é uma boa medida. Às vezes conseguimos guardar versos de cor: “o que é belo há de ser eternamente uma alegria” escreveu o poeta John Keats: “a thing of beauty is a joy forever”. O cansaço da primavera também é a primavera.

Clara Riso · Directora da Casa Fernando Pessoa