Andreia C. Faria


Até aos trinta anos tens 
a cara que Deus te deu. Depois 
tens a cara que mereces. É uma promessa 
de ironia, uma sentença 
sem recurso. 

É-te assim dito: 
estás entregue ao labor íntimo 
do que comes, ao número de horas que dormes, 
àquilo que fazes e sobretudo 
àquilo em que pensas. Deus 
(perdoa-lhe a fraqueza) 
tolera-nos enquanto somos jovens, 
ampara-nos, alisa-nos 
a fronte após um desgosto, talvez 
nos ame, mas deixa-nos 
sozinhos quando a beleza 
é terreno pouco firme 

e assiste de longe 
ao desafio temerário que lançou 
a cada filho. 

Sabes então que o rosto é uma flor
plantada no escuro, uma corola
tenra, redonda e impenetrável
que desabrocha e se abre
com as pétalas lisas e brilhantes, ou
confusas e despenteadas,
conforme a força
e a direcção do vento.

De Tão bela como qualquer rapaz, Língua Morta, 2017


Stripped bare 

Up until your thirtieth birthday you have 
the face God gave you. After that, 
you have the face you deserve. This is a promise 
of irony, a sentence 
with no appeal. 

This is what you are told: 
you are made personally responsible for  
what you eat, how many hours you sleep, 
what you do and, above all, 
what you think about. God 
(a forgivable weakness) 
tolerates us while we are young, 
looks after us, smoothes 
our brow after some unhappiness, may even 
love us, but leaves us 
all alone when beauty 
becomes a more shifting terrain 

and watches from afar 
the bold challenge he set 
each child. 

You know then that the face is a flower 
planted in the dark, a tender  
corolla, round and impenetrable, 
that unfurls and opens, 
petals smooth and bright, or 
rumpled and dishevelled, 
depending on the strength 
and direction of the wind. 


Traduzido por Margaret Jull Costa para Lisbon Revisited: dias de poesia


Um desenho do meu corpo, de repente.
Um trapézio
bambo e desunido, com pontas excrescentes,
uma rosa no fundo das costas
com o gosto do húmus, o mofo das caves
é mais acima a dor
ciática, o lóbulo queimado
por magia ou vingança,
E o gosto por cantigas populares,
o cálice venéreo,
a pronúncia da terra, impúdica,
a língua aberta e desfolhando-se, a escaldar.

O corpo é cheio, já se sabe, de nervos e ressaltos
raramente líricos
cheio da lembrança do negrume e da pobreza,
à garganta espinhosa do sexo,
os pés calcados,
o primeiro milho nos currais da humilhação.

Chega-se muito resumidamente a velho.
A criança espera ao domingo o infalível
osso fluorescente, oferecido com o jornal,
o estupendo osso da mandíbula de um dinossauro
de quem virá a ser, desfeita
a impura impressão de beleza,
um digno contemporâneo.


De Tão bela como qualquer rapaz, Língua Morta, 2017


A sudden sketch of my body. 
A trapezium 
slack and disjointed, with a few excrescences, 
a rose at the base of the spine 
with a taste of humus, the mustiness of a cellar 
and above that the pain 
of sciatica, an earlobe scorched 
by magic or revenge. 
And the liking for folk ballads, 
the venereal chalice, 
the unabashedly local accent,  
the tongue opening like a rose and losing its petals, as searing as the sun. 

The body is full, as we know, of nerves and protuberances 
which are rarely poetic 
full of the memory of darkness and of poverty, 
the prickly throat of sex, 
the downtrodden feet, 
the first slice of humble pie eaten in humble corner. 

One arrives in short order at old age. 
The child waits for Sunday to bring the infallible 
fluorescent bone, a free gift with the newspaper, 
the stupendous jawbone of a dinosaur 
of whom she will become,  
the errant impression of beauty undone, 
a worthy contemporary. 


Traduzido por Margaret Jull Costa para Lisbon Revisited: dias de poesia


Com o rigor do guia turístico
à sombra dos monumentos poderia descrever
as coisas que ainda amo.

O calor da roupa ao fim de um dia de uso,
o interior adocicado e acre dos pombais.
O coração fresco das igrejas.
A superfície lenta da beleza.
Um cão cheirando a sol,
o cadinho do sol
perfumando a carne viva.

E também a ideia dos trópicos,
aves prometendo vómito e ternura,
a gaiola aberta, lassa,
qualquer coisa sexual na lassidão.
A palavra propulsão e cravos bem temperados.
As mãos, que envelhecem
antes que o corpo dê o tempo por perdido.

E das mãos pequenas manchas,
a velha mímica de semear.
Mulheres de uma beleza ínvia,
amarga. Olho-as
como quem experimenta o gosto
térreo de uma raiz.

De Alegria para o fim do mundo, Porto Editora, 2020


With all the rigour of a tour guide
standing in the shade of monuments, I could describe
the things I still love.

The warmth of clothes after a day of wearing them,
the sickly, acrid smell of the inside of dovecotes.
The cool heart of churches.
The slow surface of beauty.
A dog smelling of the sun,
the crucible of the sun
perfuming raw flesh.

As well as the idea of the tropics,
birds promising vomit and tenderness,
the cage door open, lax,
something sexual in that lassitude.
The word propulsion and well-tempered claviers.
Hands, which grow old
before the body has noticed that time has slipped from its grasp.

And the age spots on the back of hands,
the ghosts of that age-old action of sowing seeds.
Women of an impassable, bitter
beauty. I look at them
like someone experiencing
the earthy taste of a root.


Traduzido por Margaret Jull Costa para Lisbon Revisited: dias de poesia




A terra vai secando, estiolando, doendo de metais pesados e de tanta lama. Invertem-se as correntes, ao grande gelo caem-lhe os caninos. A lua nem sempre se vê: é feroz a melancolia dos astros.

A terra de ossos contornados, Perdida no escuro dos sentidos: enxames de palmeiras na cidade, a amável temperature sempre à beira da doença, o luxo do betão, quase carnal, explicitando assédio, misturando ao pensamento uma penumbra fria; bétulas abertas como tigres pela casca, homens de feições rasgadas, almas que migram sem lume; e o desejo uma gaiola imunda, um vivo sequestro de araras.

A terra que se abria aos gregos, à astronomia, à agonia poderosa de um vulcão, filmada.

A terra vai desaparecendo. Poder-se-ia reduzí-la à questão da solubilidade das imagens – que a desarticula o sal, como a um navio.


De Canina, Tinta-da-china, 2022


Out of joint

The earth is drying out, atrophying, aching beneath all those heavy metals and all that mud. The currents are flowing in the wrong direction, the great ice is losing its eye teeth. The moon is not always visible: the stars have a fierce melancholy.

The land of contoured bones, lost in the darkness of the senses: swarms of palm trees in the city, the amiable temperature always on the cusp of insalubriousness; the luxury of concrete, almost carnal, declaring a siege; adding a cold penumbra to thoughts; birch trees with their tigerish stripes, men with exotic features, souls migrating along unlit paths; and desire a filthy birdcage, a sudden cacophony of stolen macaws.

The earth that opened up to the Greeks, to slow astronomy, to the powerful death throes of a volcano, caught on film.

The earth is slowly disappearing. One could reduce it to a question of the solubility of images – that the salt is eroding the earth, as if it were a ship.


Traduzido por Margaret Jull Costa para Lisbon Revisited: dias de poesia

E escrevia


Eu tinha grandes naus
aparelhadas na ribeira do coração.

– Fernando Assis Pacheco

Um desejo tão espúrio, escrever,
quando a monte tem andado tudo.
Nada do que importa está escrito, só repousa
a intensa sombra dos seus olhos
entre o seco arvoredo dos signos.
É tão estranho viver, tão roubado
às flores, ao sono, ao vinho, quanto mais
esta vaidade do que nunca teve brilho
mas empluma a linguagem
pelas falhas do que outros dizem.

Tinha passado anos a talhar madeira
alumbrada e rosa, quase viva, enquanto
no rosto a ilusória imobilidade
do fogo me dava a impressão de existir.
Sabia como recrudesce o tempo
em redor dos materiais — cada hora
uma navalha suja, cada imagem
uma jóia deletéria, o mar
lavrando pelas ondas a sua cicatriz.

Quis sofrer o mel, metáforas ocultas,
espécies rebentando-me por dentro
com os seus anzóis extintos. Nada mais
cretino, já que à vista começava a apodrecer
a infância, os frascos a estalar, a carne
rigorosa, uma arca desfalcada por invernos
e famílias vagamente nucleares.
E eu não via, eu queria estar à sombra e escrever
mulheres no esquema dos meus dias,
mulheres cujo coração se abate, o meu
estético sentido era o terror. Eu via e não via,
e de livros e mulheres só queria
erguê-los como grandes naus

e escrevia. Escrevo ainda,
qual aranha com as patas na penumbra.
Escrevo as coisas que das mãos
me caem, rachadas e celestiais.
De óculos escuros, dou-lhes o veludo
do outono, ou da fé o roxo manto.
Faço grandes passeios a pulso. De resto,
ando a monte como tem andado tudo.


De Canina, Tinta-da-china, 2022


 And I wrote


I had great ships
ready and waiting on the banks of my heart
Fernando Assis Pacheco

Such a spurious desire, to write,
when everything’s so up in the air and round the houses.
Nothing that matters is written down, only
the intense shadow cast by the eyes
rests among the parched forests of signs.
It’s so strange to live, so snatched
from flowers, from sleep, from wine, even stranger
when such peacockery has never impressed,
and yet still I insist on feathering language’s nest
with other people’s flaws of speech.

I had spent years carving away at dazzled,
pink, almost living blocks of wood, while
on my face the illusory immobility
of fire gave me the impression that I existed.
I knew how time resurfaces
around material objects – every hour
a dirty knife, every image
a deleterious jewel, the sea
leaving its scar on the ploughed-down waves.

I wanted the mellifluousness of honey, hidden metaphors,
species exploding inside me
with their spent fish-hooks. What could be
more idiotic, given that my childhood was, in plain sight,
beginning to putrefy, the bottles to shatter, my rigorous
flesh, a trunk ruined by winters
and vaguely nuclear families.
I didn’t see it, I wanted to live in the shadows and inscribe
women on the very structure of my life,
women with failing hearts, with terror
as my emotional aesthetic. I saw and didn’t see,
and all I wanted of books and women
was to raise them up like great ships

and so I wrote. And I’m still writing,
like a spider with its legs in the half-dark.
I write whatever falls from
my hands, cracked and celestial.
Viewed through dark glasses, I give those things
the velvet of Autumn, or the purple robe of faith.
I take long walks powered by my pen. Otherwise,
everything is still all up in the air and round the houses.


Traduzido por Margaret Jull Costa para Lisbon Revisited: dias de poesia